A pergunta que mudou minha forma de enxergar saúde mental
O que minha experiência, o trauma e a autocompaixão me ensinaram sobre processos de cura
Maio é o mês da conscientização sobre saúde mental e eu, antes de finalizar este mês, quis trazer reflexões sobre o que saúde mental cada vez mais significa para mim.
Quanto mais eu estudo trauma, sistema nervoso e autocompaixão, mais percebo que ter saúde mental não é sobre estar num estado perfeito de equilíbrio constante. Para mim, é algo muito mais íntimo e honesto, o que não significa que não seja complexo.
Quando aprendemos a exercitar a autocompaixão nos pequenos momentos de nossa vida, aprendemos uma pergunta essencial: o que eu preciso? Parece simples responder essa pergunta, mas não é. A resposta muda momento a momento, porque nossas necessidades mudam conforme a situação, conforme olhamos para nossa história,
de acordo com o estado do nosso sistema nervoso ou com o tipo de sofrimento que estamos vivendo.
Te convido a fazer um pequeno exercício e pensar em algo que tenha acontecido recentemente, que tenha despertado algum sentimento desafiador em você. Experimente se perguntar: o que eu precisava naquele momento em relação a essa situação? Em seguida, se pergunte se era possível se dar aquilo naquele momento, mesmo que isso incluísse, por exemplo, pedir ajuda a outra pessoa.
Talvez você tenha vivido um conflito com alguém e, ao invés de precisar imediatamente “resolver a situação”, o que seu corpo realmente precisava era de espaço, tempo ou acolhimento antes de conversar. Ou talvez, diante de um momento de ansiedade ou sobrecarga, o que faltou não foi força para “dar conta de tudo”, mas regulação, descanso ou apoio. Muitas vezes sofremos não apenas por aquilo que aconteceu, mas pelo que faltou no momento em que aconteceu.
Quando sentir mais nem sempre é o caminho
Existe uma ideia muito romantizada no universo das terapias e do autoconhecimento de que o caminho sempre é “sentir mais”, “ficar presente”, “mergulhar na emoção”, “encarar a dor”. E eu mesma levantei essa bandeira por muito tempo, até me especializar na visão trauma-informada.
Acho que uma das coisas mais importantes que aprendi, não só na teoria, mas também com a minha própria experiência ao vivenciar transtorno de estresse pós-traumático, é que a cura não é uma fórmula única. Precisamos, sim, sentir, mas nem sempre. Precisamos estar cada vez mais em contato com nossas necessidades e com nosso sistema nervoso para saber qual é a hora de mergulhar e qual é a hora de parar.
Eu, por ter sido ensinada anteriormente através dessa perspectiva de entrar em contato com a dor sem considerar o estado do sistema nervoso, caí nesse engano, o que “atrasou” meu próprio processo de cura. Confiei no que me disseram e não no que eu precisava e dava conta de tolerar naquele momento. Resultado: mais traumatização, mais sintomas.
Portanto, não acredite nas soluções que aparecem por aí, nem nas minhas, sem antes ter certeza de que está se sentindo pronto. Não aceite sugestões do que fazer para se curar sem checar consigo mesmo se esse caminho faz sentido para você. Isso deveria servir para tudo, mas, quando estamos no meio do turbilhão, é comum estarmos desconectados de nós mesmos e acreditar muito mais no que os outros dizem, do que em nosso próprio saber.
O que aprendi com Kristin Neff sobre incerteza e presença
Esses dias, assisti a um vídeo com a Dra. Kristin Neff, uma das minhas professoras de autocompaixão, contando sobre o filho dela, que vive com TOC e autismo. Uma das grandes dificuldades do TOC é a intolerância à incerteza. O cérebro tenta desesperadamente encontrar garantias para aliviar o desconforto.
Ela conta que ele ama zoológicos e que, por exemplo, pode entrar em um loop de medo pensando: “E se um dia proibirem zoológicos?”
E a tendência natural de quem ama alguém é tentar tranquilizar e dizer: “Não se preocupe, isso provavelmente nunca vai acontecer.” Mas, no TOC, e até mesmo nos transtornos ansiosos ou traumáticos, a busca por garantias fortalece ainda mais o ciclo.
Então, a resposta mais compassiva não é oferecer certeza. É conseguir permanecer ali com a pessoa junto da incerteza, sem invalidar o que ela sente, sem julgar.
Existem momentos em que cura significa justamente desenvolver capacidade de permanecer com o desconforto sem correr imediatamente para tentar processar a emoção, sentir a dor, muito menos se anestesiar, controlar ou buscar soluções.
Mas o que mais me tocou foi quando ela falou da própria condição neurológica, chamada epilepsia do lobo temporal. Ela descreve episódios em que sente uma espécie de déjà vu acompanhado de medo intenso. E, inicialmente, tentou lidar com isso da mesma forma que ensinava aos outros: ficando presente com a sensação, acolhendo, respirando, observando. E eu assim fiz também, como aprendi com ela e diversos outros professores de mindfulness e tradições budistas.
Só que isso piorava as crises.
“Quando parece que não há nada que possamos fazer, fazemos o que podemos”
Ilustração de Anna-Laura Sullivan
Algumas dores precisam de presença. Outras, de contenção.
Eu aprendi na pele o que a Kristin também aprendeu com sua própria experiência. E que maravilhoso que possamos ir para além da teoria. Afinal, o que seria de uma teoria se ela não pudesse ser atualizada momento a momento através da experiência vivida?
Eu vivenciei crises de dissociação após um episódio de violência urbana e, quando as crises vinham, eu fazia como mandava o roteiro: ficava presente com a sensação, acolhia, observava. E isso só fez as crises piorarem. Desenvolvi o medo do medo de ter as crises.
O que a Kristin e eu precisávamos não era aprofundar presença, era estabilização. Estávamos tão presentes que aumentávamos ainda mais a percepção de cada sensação e, na hora da crise, para o cérebro isso pode dar um sinal de que você ainda está em perigo.
Ela conta que aprendeu, durante as crises, a mover completamente a atenção para o pé direito ou para alguma parte do corpo. Já eu usava as mãos tocando minha pele, como num abraço. E, quando estava em casa, usava cobertor, almofadas, tudo que pudesse me dar uma sensação de contorno, já que na dissociação você perde a conexão com o que está fora.
Seja lá qual for o seu caso, se a crise ou a sensação for intensa, busque levar sua atenção para algo concreto e regulador.
Toda essa vivência e essa fala da Kristin me fizeram pensar em quantas vezes transformamos processos terapêuticos em regras rígidas. Quando, na verdade, alguns estados internos precisam de presença e outros precisam de contenção. Algumas dores pedem mergulho, outras pedem contorno. Algumas precisam de escuta, outras de presença física. Umas precisam de gente, outras de espaço.
Algumas experiências precisam ser testemunhadas profundamente. Outras precisam que o sistema nervoso entenda primeiro que está seguro o suficiente para não colapsar.
Isso mudou completamente a forma como vejo autocompaixão. Autocompaixão não é se forçar a sentir tudo, muito menos fugir de tudo. É desenvolver discernimento interno para se perguntar a pergunta com a qual iniciamos esse texto: “o que eu preciso agora?”
Saber que, em alguns momentos, o mais compassivo é permanecer com a emoção. Em outros, o mais compassivo talvez seja estabilizar o corpo, se orientar para o ambiente, descansar, pausar ou simplesmente não aprofundar algo que o sistema nervoso ainda não consegue sustentar.
A cura talvez não esteja em aplicar sempre a mesma técnica, mas em aprender a ouvir o seu sistema interno sem as imposições, teorias e suposições externas. E, honestamente, acho que isso é uma das formas mais profundas e verdadeiras do tão falado amor-próprio.
- Você mudou
- Sim!
- Agora eu sou verdadeiramente eu.
Ilustração de Anna-Laura Sullivan
Participe do Café para despertar
Convido você a perceber se faz sentido aprofundar o seu processo de autoconhecimento em um espaço de pausa e presença compartilhada e apoio mútuo.
Ao se tornar membro aqui no Substack, pagando um valor simbólico de R$25, você participa do nosso grupo online que acontece toda última quinta-feira do mês. O próximo será semana que vem, dia 28/05.
É um espaço de escuta, troca e presença, compartilhado com pessoas que também estão comprometidas com um processo de autotransformação. Este mês vamos iniciar o tema Autocompaixão: o pilar para fortalecer a aceitação radical. Você é bem vindo como está, sem precisar perfomar, apenas ser. É um descanso em grupo.
Você vem com a gente?Basta clicar no botão abaixo e subscrever:




